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Dromomania.

E não é como se eu soubesse como as coisa funcionam por aqui. Ou como devo balançar as minhas asas. Andar pelos fios de cobre e me cortar.
Tenho cegado os meus amigos e uivado junto aos coiotes. E nenhum medo tem me acompanhado.
 Nós cantamos “Let it be“, e fechamos os nossos olhos. Engolimos facas, mas está tudo bem.
 Soltamos nossos cabelos contra o vento da Califórnia. E mostramos que somos tão livres quanto qualquer pássaro pode não ser.

 

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A terceira.

Não te escrevo há muito tempo, porque eu costumava deixar a melancolia me guiar para rabiscar as cartas. Ela era tão minha amiga quanto você. As coisas mudaram, sabe? e desde que me permiti ser feliz por completo, sinto como se tivesse perdido todo o dom da escrita. Talvez eu seja uma dessa escritoras amaldiçoadas, quem sabe? Ou talvez, algum dia, eu encontre a cura para as feridas que corroem o coração das pessoas com as minhas palavras.  É o que tenho buscado, você sabe. Com ou sem dom. Com ou sem dinheiro.
O meu cabelo cresceu, e acredito que essa não foi a única coisa a se expandir durante o tempo em que não dei notícias. Gente feliz é chata, e eu não quis te aborrecer mais ainda.
Algumas coisas permanecem iguais: Os carros continuam batendo no cruzamento da Primo Picoli e a Padre Epifânio, o que é o encrenca, principalmente quando o dia está agitado. Continuo fiel a Bon Jovi e aos anos 80/90. E eu sei que você vai rir, mas gostei de uma ou duas músicas daquela Lana. Então deixemos isso entre nós. Minha bexiga não suporta dois litros d’água por dia, por mais que tentem me dizer, a não ser que eu viva e trabalhe num toilet, as coisas não funcionam assim pra mim.

Lembra quando você dizia que sou a tristeza em pessoa, mesmo feliz? A desculpa é que eu não sou radiante. Algumas pessoas são como o sol, mas eu me reservo a estrela e escuridão. Eu brilho, mesmo assim. Mas eu não ofusco. Não cego. Não que eu me importe, por favor.
Ouvi dizer que você vai passar as festas bem longe. O que não é novidade, já faz tanto tempo desde a última vez que te vi. As notícias do seu lado não tem sido boas também.

Miguel, você sempre foi tão mais sábio do que qualquer pessoa que eu já tenha conhecido, me responda; Como é que a gente lida com a felicidade?  Não sei se eu tenho usado-a com tudo o que posso, eu nem ao menos sei se estou fazendo isso da maneira correta…sabe? ser feliz. Eu convivi a vida inteira sendo a garota que você conheceu, e agora…

Eu sou feliz. Eu estou feliz.

Eu estou bem, pela primeira vez.

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A segunda.

Veja bem, estou vivendo em um mundo cercado de trolls, e diariamente rezo um terço para Santa Terezinha de Ávila para que ela traga muita luz e os transforme todos em pedras. Não desejo o mal, você sabe que sou incapaz de fazer qualquer coisa que vá sangrar o outro. Não gosto de ver sangue, quanto mais sangue alheio. Enquanto milagre algum acontece, venho me munindo com flecha e balestra, daquelas que costumávamos apontar nas vitrines e dizer: “Olha só, se tivesse uma dessas, a vida estaria resolvida.”
Nada resolvido.
Dona Luzia bateu palmas até se cansar na frente de casa hoje, me escondi embaixo da mesa da cozinha e me certifiquei de não fazer barulho nenhum. Puxei a cadelinha junto comigo. Tenho uma nova cadelinha, não sabe? Com nome de música de rock e tudo, estou te dizendo, devo estar enlouquecendo.
Então desci as escadas, pé ante pé, abri a cortina de modo que nem mesmo eu conseguisse ouvir, e o meu peito finalmente encontrou ar e tranquilidade – só um pouquinho- quando vi que ela tinha desistido. Acho que é porque eu já desisti.
Estou ficando muito senhorinha, né?
Miguel, tem tanta coisa rolando, e esse rolo vem crescendo, e se tornando um nó, vários nós, e eu não sei como fazer tudo isso funcionar sem você por perto. Por onde você anda, amigo? Cadê?
Não quero mais distância. Nossa vida tem sido cheia de buracos, e estradas, e mais buracos, velocidade altíssima com pedregulhos sendo lançados em nossos olhos, nos deixando cegos nas coisas das quais mais precisamos ver. E, olha só, preciso mesmo de você por perto.

Você cantava aquela frase de John Lennon para mim:
“When I cannot sing my heart, I can only speak my mind”
E só então eu me lembro de dias de sol.

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“A tempestade que chega é da cor dos teus olhos”

Eu estava na área de fumantes e fiquei me perguntando se deveria ou não te escrever. Já fazia tanto tempo, e eu não tenho mais o mesmo ânimo desde que você se foi.
Então afundei a minha mão dentro da minha bolsa e peguei a minha caixa de lápis de cor, só para dar um efeito, veja só; agora eu preciso de um efeito a mais para tentar te convencer que você faz falta.
Você faz.
Estive pensando: Não sei mais como te chamar.
É que desde o Natal passado, quando tudo aconteceu, não só cortei o dedo com aquele enfeite do pinheiro, mas recebi uma cicatriz e uma dor que jamais acreditei que algum dia poderia sentir. Você entende, não é?
Sei que você continua por aí; a pessoa boa que sempre fora e que sempre será e, caramba…você já sabe de antemão todas essas coisas que eu planejo por dias te dizer, mas nunca mais fui corajosa o bastante.
Durmo e peço em oração por uma milagre, por uma volta repentina. Não choro com tanta frequência como antigamente, mas ainda acontece.
Algo sussurra em meu ouvido: “As coisas estão mudando para você, deveria estar feliz.”
E eu tento, sabe? Eu juro.

Mas sempre existe esse vazio, que nada, nem ninguém no mundo vai conseguir suprir.
E eu sei que você sabe. Eu sei que você sabe disso tudo, e sei que você sabe que estou tentando.

Mas todas as minhas histórias, só serão boas histórias, se forem inspiradas em você.

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Castelo de vidro e aroma alugado.

Eu jogo sobre os teus pés a minha capa e armadura para que você possa me atingir e agir sobre mim, não me importa muito o tempo que eu tenha que esperar não, tá? Contanto que você saiba que eu sou, que eu estou toda desarmada desde o dia que te vi, atravessando o circo de flores na praça central, e você comentou que jogara uma garrafa de vidro entre as tendas na noite anterior.
Ah, anarquismo; Como eu adoro esse espírito de anjo sem asas que você tem, escalando árvores e pulando entre os galhos só para sentir a sensação de poder voar um pouco. E com os dedos dos meus pés enfincados na areia, eu sussurrava de modo que só eu pudesse ouvir, que pode, que você pode voar e acabava me levando contigo como cobaia, como experimento de laboratório, eu não me importava, eu estava adorando todo esse frio na barriga, todo esse arrepio na pele, do tipo que eu já nem me lembrava mais como era, e das risadas durante a madrugada. Eu cuido da sua febre, você fica quieto quando eu caio no sono. O sol que queimou as nossas costas durante todo o dia, e os pombos que deixamos de alimentar.

Nós funcionamos de modo simples.

Mas aí você segura a minha mão, e eu me ajoelho novamente, descarrego as minhas armas, a minha coroa e o meu coração em você, sem nem pensar.

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Vermelho-apego de um segundo.

Tic.
Tic.
Tic.
Eu continuava a olhar o teto braco gatinho recém pintado, e todas as flores que eu havia plantado naquele dia, eram feitas de plástico. Engraçado; estava acumulando vermelho: A parede do quarto, as orquídeas (também vermelhas) de pano no vaso de sete reais, bem ao lado das minhas canetinhas e livros que eu já não leio, o abajur logo ali, a colcha, as fronhas, até mesmo essa camisa amassada.
Tá tudo tão amassado, sabe? Tá tudo sangrando.

- Antes vermelho, do que preto e branco – você diria.

Deus, como o seu otimismo era perigoso, irritante. Como eu adorava isso em você, e como eu preciso dele agora, aqui, sem fuga, sem tempo pra voltar, sem desculpas para ir embora, só com a intenção de fazer esfumaçar o solo embaixo dos meus pés, feito nébula, feito coisa que nunca soube bem o quê.

 Tac.
 Tac.
 Tac.

E só passou um segundo.

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Sixteen just held such better days.

Aquele era o tipo de lugar onde as cadeiras nunca ficavam vazias, mas sempre fora do lugar.
O quatro negro representava cada um de nós, e não haviam mapas que pudessem nos fazer mudar. Os ataques vinham de várias maneiras: se não podíamos falar, o lugar era, então, bombardeado por aviões feitos com papel rasgado de folhas ecológicas , o bote salva-vidas? a mensagem que o mesmo continha. Em dois mil e cinco era difícil encontrar uma gangue, uma turma, ou qualquer um que tivesse um celular para poder enviar torpedos. Nós aprendemos da maneira mais divertida e desafiadora.
O pessoal do fundo, que atirava bolas de chiclete mascado no teto e gargalhavam em filmes como “O nome da rosa” ou “À Espera de um Milagre” eram afugentados por medo de inferioridade. Os garotos que julgávamos bacanas, na verdade, desenhavam pênis nas carteiras, e as garotas más chacoalhavam suas pulseiras baratas de metal e distribuíam balas 7 belo para as amigas mais próximas. Vez ou outra, comentavam alguma coisa com suas vozes delicadas que nós nunca tivemos.
Havia também um certo grupo de jovens que não eram tão conhecidos, mas eram destemidos, e não tinham tanto medo da chuva, como hoje em dia.
Andam culpando a idade.
Faziam do violão, um filho, naqueles três degraus da escada entre o pátio e o corredor:
A linha tenuê entre os palhaços e a atração principal.

Foram os melhores anos da minha vida, pena eu ter demorado tanto tempo pensando o contrário.